
Não. Fantasiar na infância é normal, mas mentir pode ser um sintoma de que algo não está certo. Mentir não é fantasia, é um padrão de comportamento. As crianças podem mentir porque tem medo de assumir uma posição com respeito a si próprias ou de encarar algum aspecto da realidade que a incomoda. Algumas vezes a mentira é uma forma mágica de se livrar de consequências de seus atos.
Na criança pequena (até 5 anos) a mentira é uma tentativa de materializar o que está em sua cabeça. A criança tenta dar forma e um sentido ao mundo que ela conhece e ao mundo desconhecido também.
Frequentemente, quando as crianças começam a mentir, estão imersas no medo, em dúvidas a respeito de si mesmas, ou sentem-se culpadas ou possuem uma autoimagem pobre. São incapazes de enfrentar o mundo e então recorrem ao comportamento defensivo, agindo de forma oposta àquilo que realmente sentem. Muitas vezes, a mentira ou o faz de conta atuam como uma espécie de tradutor de emoções que a criança não consegue definir.
Quando a criança mente, costuma acreditar nela mesma. Ela tece em torno do comportamento uma fantasia que lhe seja aceitável. A fantasia torna-se um meio de expressar as coisas que a criança tem dificuldade de admitir como realidade.
Muitas vezes e de forma inconsciente, as crianças são estimuladas a mentir devido ao comportamento dos pais. Esses talvez sejam severos ou inconsistentes demais, pode ser que tenham expectativas muito difíceis de serem correspondidas pelas crianças, ou talvez não sejam capazes de aceita-las como são. A criança é então “obrigada” a mentir como forma de autopreservação.
Na maioria das vezes, não se trata de desvio de caráter já que a criança ainda não é capaz de refletir sobre as consequências das suas mentiras. Essa clareza começa a surgir por volta dos 8 anos.
Devemos nos atentar também aos exemplos, muitos pais costumam contar pequenas mentirinhas (sutilezas diplomáticas) que, teoricamente, não fazem mal a ninguém, mas, na prática, podem confundir a cabeça dos filhos. Todas as vezes que os pais contam essas mentirinhas para os filhos ou na frente dos filhos, demonstram que aceitam e admitem a mentira, não só a própria como a dos filhos.
O que fazer quando se descobre a mentira?
– O ideal é explicar ao filho, num tom sereno e seguro, que você tem percebido o quanto está difícil para ele dizer a verdade quando erra, mas que gostaria que fosse assim para que, juntos, resolvam a situação. É bom assegurar que você o ama de qualquer forma, mas que esse não é um comportamento adequado. Ao invés de punir, é melhor que os pais não percam a oportunidade de tentar desvendar o que existe por trás do mundo imaginário infantil.
– Não chame a criança de mentirosa, pois nem sempre ela tem a intenção de enganar. O melhor é dizer: “Será que você não se enganou? Eu não vi nenhum menino tentando…”.
– Se a criança anda mentindo com frequência, se pergunte se você está dando atenção e ajudando a criança a enfrentar seus medos. Já pensou como é difícil dormir com um monstro embaixo da cama? Ao invés de punir, ajude seu filho a espantar o monstro.
– É importante desmentir as histórias aos poucos, dando sugestões e tentando traduzir esses sentimentos para a criança.
– Tente descobrir a real razão pela qual a fantasia pode estar sendo mais interessante do que a vida real.
– Nunca use recurso fantasioso para corrigir a criança (homem do saco, bicho papão). Isso amedronta e não funciona.
– Não prometa aquilo que não pode cumprir. Assim você estará dando exemplo de mentira.
– A punição tem eficácia limitada: mostram que os pais desaprovam a mentira, mas não ensinam o porquê não se deve mentir novamente.
Quando eu devo me preocupar?
Quando a criança:
– vive sempre no imaginário e realiza poucas coisas;
-está sempre no mundo da lua, não obedece regras das brincadeiras;
– mente sem nunca conseguir enfrentar as consequências das dificuldades em casa e na escola;
– não quer que a chamem pelo nome, não tira uma determinada fantasia;
– já passou da idade (mais de 8 anos).
A criança funciona como porta-voz do que acontece dentro da sua família (nuclear e mais próxima). É a criança quem costuma manifestar os sintomas de relações conturbadas dentro do lar. A mentira da criança pode emergir como uma metáfora de que alguém está enganando alguém no ambiente onde ela está inserida. O certo é valorizar e dar mais atenção às crianças. Tentar descobrir a real razão, pois numa família onde a mentira não tem vez, seu filho deve ter tido um motivo respeitável para ter inventado ou distorcido um acontecimento.