
Muitos devem ter ouvido falar acerca da série da Netflix que virou febre no início do ano. A série aborda o tema suicídio e bullying entre os adolescentes e virou tema de inúmeras discussões entre profissionais de saúde e da educação.
Vários profissionais criticaram a série, pois acreditam que serviu de incentivo para que os jovens pensassem em acabar com a própria existência. Na minha opinião, em consonância com uma ampla rede de colegas, a série foi um grande serviço que a Netflix prestou à sociedade em prol da prevenção do suicídio, aumentando, inclusive, o número de ligações para o CVV (Centro de Valorização à Vida). Além disso, pais e profissionais ficaram mais atentos e passaram a discutir mais o assunto e a procurar mais orientação.
No Brasil, estima-se que ocorram cerca de 13 a 14 suicídios entre os adolescentes diariamente. E são 1600 tentativas de suicídio por dia!!!! 8% de adolescentes entre 15 e 18 anos já tentaram se matar e 14% já chegaram a planejar o próprio suicídio. Desses, as meninas são responsáveis pelo maior número de tentativas, sendo elas pela ingestão de medicamentos em grandes quantidades. Os meninos chegam mais aos “finalmente” e são mais agressivos em suas tentativas.
Portanto, precisamos falar sobre isso. Quando perguntamos ao adolescente se ele pensa ou já pensou em se matar, não o estamos constrangendo e sim lhe apoiando, dando oportunidade para que ele fale sobre as situações que o afligem. E, então, podemos pensar em como ajuda-lo. Enquanto pais e profissionais, devemos estar atentos aos fatores de risco e proteção.
Importante ressaltar que, na grande maioria dos casos de suicídios entre adolescentes, havia um quadro psicopatológico que não foi identificado. Cerca de 80% desses casos apresentam depressão.
Além da predisposição genética (código genético herdado dos pais), a epigenética tem estudado muito o impacto ambiental (estressores tóxicos do ambiente) na genética. Ou seja, a convivência num ambiente familiar e/ou escolar violento, negligente ou hostil pode aumentar a expressão do gene. Dessa forma, se há uma predisposição genética para depressão, transtorno de ansiedade, esquizofrenia e há uma convivência ambientar tóxica ou uso de substâncias, isso aumenta muito a chance de que o adolescente desenvolva um quadro psicopatológico (serve de gatilho) e, consequentemente, cometa suicídio ou apresente ideação suicida (vontade de acabar com a própria vida).
A série da Netflix mostra bem o impacto dos fatores ambientais na vida da personagem principal: Hanna Baker.
Além disso, a própria estrutura e funcionamento do cérebro do adolescente propiciam comportamentos de risco (incluindo suicídio e uso de substâncias), já que a diminuição da dopamina faz com que busquem novas sensações em busca de prazer e, ao mesmo tempo, o córtex pré-frontal (responsável pela inibição de respostas e auto regulação) encontra-se ainda imaturo.
Portanto, faz-se importante conhecermos e divulgarmos os fatores de risco: bullying (vítimas de violência contínua), pais possuírem armas de fogo em casa, uso de substâncias (álcool, drogas), ter sofrido abuso sexual em algum momento da vida, família desestruturada, ter predisposição genética para psicopatologias (depressão, ansiedade, esquizofrenia, transtorno bipolar).
O que fazer? Procurar imediatamente ajuda profissional ao primeiro sinal de que algo pode estar ocorrendo. Procurar a avaliação psicológica e psiquiátrica. Melhor sempre pecar pelo excesso.
O tratamento geralmente é feito por um psiquiatra com uso de medicação, terapia cognitivo-comportamental, orientação familiar e orientação escolar (se necessário).