Publicado em: 14 de setembro de 2025

O uso excessivo de eletrônicos pode prejudicar o desenvolvimento infantil. Estímulos sensoriais e experiências reais são essenciais para a criança.

As crianças já nascem sabendo mexer nos eletrônicos! Essa é uma das frases que mais ouço no consultório de pais orgulhosos com tamanha facilidade com que seus filhos de 2/3 anos de idade se apropriam de Ipad, tablets, celulares, Youtube, entre outros.

            Eu não sou contra o uso de eletrônicos. De forma alguma! Muitos jogos e aplicativos são capazes de treinar habilidades cognitivas importantes, como atenção, memória, velocidade de processamento, etc. Mas, o uso excessivo (e quase exclusivo) dos eletrônicos, podem ter um efeito inverso, principalmente no cérebro de crianças e adolescentes que ainda estão em desenvolvendo. Alguns estudos apontam não só alterações funcionais, como também alterações estruturais nos cérebros.

            Os cérebros, ao nascer, ainda estão em desenvolvimento, formando suas conexões (sinapses) através das experiências e vivências e, portanto, tem uma forte dependência do meio em que vivem. Quanto mais experiências, quanto mais ricas, mais conexões se formam e mais fortalecidas estarão essas sinapses. A infância é o período em que o cérebro se desenvolve com maior velocidade, diminuindo um pouco durante a adolescência, diminuindo durante a idade adulta e declinando com o envelhecimento.

            O ambiente infantil deve proporcionar o maior número de vivências possível, deve ser o mais rico em estímulos possível (sem overdose, claro!!).

            Nosso cérebro tem dois lados: hemisfério esquerdo (mais lógico e racional, que procura explicar as vivências) e o hemisfério direito (mais emocional e criativo, que sente as coisas). Para que tenhamos equilíbrio, os dois hemisférios devem trabalhar juntos, de forma integrada. E isso só é possível quando proporcionamos os dois tipos de experiências para as crianças. Resumindo: tudo começa com as experiências que pais e cuidadores oferecem.

            Ao permanecer nos eletrônicos por muito tempo (o que temos cada vez mais visto nas salas de espera, nos restaurantes), uma mesma rede de conexões é estimulada, deixando de lado outras tantas. E o que não é usado, a própria natureza se encarrega de “tirar” do caminho.

            A criança em desenvolvimento necessita de estímulos sensoriais de todos os tipos: visual, tátil, olfativo, auditivo, paladar, vestibular, proprioceptivo. E, muitos desses estímulos não são realizados por meio dos eletrônicos. É preciso brincar no playground, correr, pular, pisar descalça na grama, na areia, na terra molhada, sentir o cheiro de chuva, de bolo, de flores…enfim, sentir o mundo. E, depois de senti-lo, nomeá-lo, buscar explicações para integrar os hemisférios, trabalhar razão e emoção juntos.

            Outro agravante que estamos percebendo no consultório devido ao uso excessivo de eletrônicos desde muito cedo, é o déficit motor. As crianças estão sem estímulos motores tanto ampla como fina. Não sabem mais correr, subir no trepa-trepa, pular, escalar, estão inseguras e desajeitadas. Encontram dificuldades para desenhar, escrever porque não recebem mais estímulos para plantar, brincar de tinta, de massinha, de argila, de areia. Estão pulando fases, mas o cérebro obedece a uma ordem de desenvolvimento e maturação que necessita desse tipo de experiências.

            Mas, a criança não sabe, não conhece, é preciso que lhe apresentemos o mundo com suas cores, cheiros e sons. Não adianta proibirmos os eletrônicos sem apresentar alternativas de diversão. Os pais são exemplos.